O Acidente


23:30h

A gente tinha acabado de sair de um cinema vazio e esquecido numa avenida importante. Foi tão bom estar com ele de novo.

23:31h

- Vamos atravessar?
- Não, Victor, o sinal está fechado pra nós.
- Meu Deus Anne,  são onze e meia da noite! Não vem nenhum carro.
- Eu sei, mas, eu me sinto mais segura não atravessando agora.

23:33h

- Não! Não! Por favor Victor não vai!
- Não tem nenhum carro vindo.E ele atravessou, mesmo depois de eu ter implorado para ele não fazer isso. Um caminhão  desgovernado veio, e o motorista não conseguiu parar, o barulho dos pneus arrastando no asfalto partia meu coração, e me feria como se fosse uma faca me cortando por dentro. Mais tarde soubemos que o motorista já estava tentando parar, pois já tinha perdido parte dos freios antes de virar naquela rua. E atropelou ele.Meu Deus, meus olhos pareciam uma cachoeira de água salgada, eu não conseguia parar de chorar. Enquanto ligava para os bombeiros, polícia e Samu. As atendentes mal podiam me entender, eu soluçava tão forte, e meu peito doía tanto. Eu queria uma ajuda, mas a rua estava deserta àquela hora da noite e como não era residencial eu estava sozinha, o motorista do caminhão tinha batido a cabeça no pára-brisas. Nunca me senti tão impotente como naquela hora.

Não sei ao certo que horas.

O socorro chegou, eu estava ao lado dele, ele estava desmaiado sangrando muito, algumas partes desfiguradas, e eu mal conseguia falar. Os bombeiros chegaram e tiraram o motorista do caminhão, o cinto dele havia ficado preso. E depois retiraram o caminhão da rua, antes que amanhecesse. Samu e bombeiros trabalharam juntamente para imobilizar ele direito. E eu chorava muito, graças a Deus, a moça que me atendeu no Samu, pediu pra mandarem alguém pra me ajudar, eu não estava conseguindo andar. Eu estava tão nervosa, chorando tanto que os paramédicos quase me deram tranqüilizante. Mas aí eu disse que não queria ver, e fui na frente da ambulância junto com o motorista.Chegamos no hospital bem rápido, e levaram ele para a sala de cirurgia imediatamente.

03:01h

Victor acabou de sair da sala de cirurgias, o médico me chamou para um canto e disse:
- Hmm, …
- Anne.
- Senhorita Anne, nós conseguimos realizar a cirurgia com sucesso, o corpo dele ficará bem em algumas semanas.
- O que quer dizer com o corpo dele?
- Sente-se por favor.
- Não vou me sentar! – eu gritei – eu quero saber o que você quis dizer com ‘o corpo’ dele!
- Senhorita, acalme-se por favor, infelizmente, nos últimos minutos da cirurgia, um dos paramédicos detectou pouca atividade cerebral.
- E o que isso quer dizer?
- Ele entrou em coma.Eu desabei, não conseguia mais pensar em nada, minha mente só conseguia se concentrar nas palavras Victor, coma, acidente, Victor, Victor, Victor. Eu não conseguia nem me sentir bem, por saber que ele vai ficar bem. Eu chorei nos primeiros minutos. Depois não sei o que aconteceu. Tudo ficou branco.

Algum tempo depois.

Eu acordei com uma mão fria na minha testa. Não sabia o que tinha acontecido, nem porque, eu só conseguia me lembrar de Victor e coma. Meu Deus. Eu entrei em desespero, me levantei rápido e olhei para os lados, o doutor estava bem à minha frente, me observando calmamente.
- Doutor?
- Anne, como se sente?
- Não tenho certeza, o que aconteceu?
- Você desmaiou. Foi uma notícia chocante, eu sei, mas você deve entender, não há que possamos fazer a partir de agora.
 Eu comecei a chorar.
- Agora, só podemos esperar que ele se recupere do choque por si mesmo. Não sabemos quanto tempo pode levar até que isso aconteça. Ele pode levar de 5 minutos à 5 anos. Sinto muito.Eu chorei ainda mais.
- Porque não liga para os seus pais querida? – uma enfermeira bonita e gentil me perguntou.Eu acenei com a cabeça. Não conseguiria falar nada.

4:30h

- Mãe?
- Anne, querida, onde você está? Estávamos preocupados, você não ligou, nem chegou em casa, nem na casa do Victor e o celular dele não atende..Eu recomecei a chorar.- Anne queria, o que aconteceu?
- Mãe – eu disse entre soluços– Eu estou no hospital, Victor está comigo. Ele foi atropelado por um caminhão e está em coma. Por favor, mãe, vem pra cá, eu não vou agüentar ficar sozinha.
Querida.. –ela estava sem palavras – já estamos a caminho. Em qual hospital está?
- Estou no São Marcos.
- Já estaremos aí.
- Obrigada mãe.
- Alô?
- Dona Júlia?
Oh, Anne, que surpresa. Porque está me ligando tão tard.. cedo?
- Dona Júlia, eu estou no hospital.
Meu Deus Anne, o que está fazendo aí? Victor já sabe?
- Dona Júlia – eu já estava chorando – Eu estou aqui, por causa do Victor, ele foi atropelado quando saíamos do cinema, e estou no hospital esperando meus pais chegarem, agora ligando para a senhora pra te avisar. Mesmo que não seja muito fã e nem se dê muito bem com seu filho. Ele é seu filho e precisa de você agora.
- Como ele está? – ela também já estava chorando
- Ele passou por uma cirurgia e no final ela entrou em coma.Ela se desesperou.
- Onde… Onde vocês estão?
- Estamos no São Marcos.
- Já estou chegando.

04:47h

Meus pais entram correndo de roupão, com a minha irmãzinha no colo.
- Anne, meu bem. – minha mãe me abraçou forte. – Como está?
Eu chorei.
- Cadê o papai?
- Foi conversar com o médico.
Senti algo puxar minha calça.
- Anný, poquê você stá cholando?
- Oh Belle, minha linda. – eu a peguei no colo – O tio Victor está doente, e eu estou muito triste.
- Anný, ele vai ficá beim? Não vai? Eu não góto de ti vê cholá. – e me abraçou
- O doutor disse que vai meu bem. Ele disse que vai.
Mamãe pegou ela do meu colo.
- Já ligou para os pais dele?
- Liguei para a mãe, o pai está preso.
- Ela já está vindo?
- Disse que sim, e espero que sim.
Papai aparece no corredor, de roupão de seda, e pantufas.
- Anne!
- Papai!
Eu o abracei.
- Oh, querida, como está?
- Estou um pouco melhor agora.
- Eu falei com o médico, ele me disse o que aconteceu.
-Sim.
- Você comeu alguma coisa?
- Nós jantamos antes de ir ao cinema, mas eu não comi muito.
- Querida, tem que se alimentar. O médico me disse que desmaiou.
- Foi por causa da notícia do coma.
- Ele fez um exame de sangue em você, você estava com a glicose baixa, e estava muito nervosa. Ele me disse pra te levar na cantina para comer alguma coisa.
- Não, papai. Eu quero ficar aqui, perto do quatro dele.
- Então você quer que eu traga alguma coisa pra você?
- Só um café bem forte, por favor.

Me sentei no branco de frente para o quarto dele. O médico disse que ainda não era bom deixar alguém lá dentro. Meu pai havia me trago um café e um pedaço de torta de frango. Me senti um pouco melhor depois de comer, admito. Mas ainda não estava cem por cento.

07:00h

 As pessoas já estavam começando a chegar, meus pais já haviam ido embora, tentaram me convencer a ir pra casa e tomar um banho, pra depois voltar, mas eu sabia que se fosse, eles só me deixariam voltar depois de dormir, e descansar bastante.O médico entrou no quarto. Então já eram sete horas. Ele entrava no quarto a cada hora para ver como ele estava. As ultimas vezes, me disse que estava na mesma.Ele saiu do quarto, com uma cara suspeita.
- Anne.
- Sim doutor?
- Dessa vez, sente-se aqui comigo.Nos sentamos num dos bancos.
- Ele já havia mostrado progressos nas últimas vezes que vim, mas não te cntei porque não queria lher dar falsas esperanças.
- Oh.
- Mas, dessa última vez, ele acordou.
Meu Deus, meu mundo desabou. Ele havia acordado.
- E quer te ver.
Eu comecei a chorar. Não conseguia me controlar de tanta felicidade, eu só queria agradecer a Deus por ele ter ficado bem. Eu fiquei tão aliviada, que meu coração e meu corpo pareciam estar mil toneladas mais leve cada. Meu rosto expressava tão claramente meu alívio que o doutor até sorriu pra mim.Ele me disse para entrar. Eu entrei.

07:18h

Ele estava olhando para os lados, memorizando cada detalhe do quarto como faz quando está sem nada para fazer. Fechei a porta. Ele olhou pra mim.
- Amor, você está horrível.
Eu meio que ri, meio que chorei. Então comecei a chorar de verdade. Me sentei perto da cama dele.
- O que houve? Por que está chorando? – ele tentou se levantar.
- Não se levante. Quebrou alguma costelas.
- Oh. – ele sentiu a dor.
- Meu Deus Victor, eu estou tão feliz de ter ver vivo. Eu fiquei tão preocupada.
- Porque meu anjo?
- Por que? Por que? Oras, porque você atravessou a rua quando eu te implorei para não fazer isso – ele corou um pouquinho – E ainda foi atropelado por caminhão, aí você desmaiou, e o Samu te trouxe pra cá, e você ficou algum tempo na sala de cirurgia, e depois veio pra cá.Ele ficou mudo por alguns instantes - Me desculpe.
- Eu te amo.
- Sabe que eu também te amo.
- Eu só queria escutar isso uma vez antes de me odiar.
- Não vou te odiar.
- Eu trouxe alguém pra te ver. Ela está te esperando.
- Quem você trouxe?
-Sua mãe. 
Ele ficou sem palavras.
- Quando puder gritar e discutir, nós falaremos sobre isso. Mas por enquanto, aproveite ela. Ela veio de longe pra te ver. – Dei um beijo em seu rosto e saí do quarto.
Ao sair do quarto, vi doa Júlia conversando com o médico.
- … mas e a conta doutor? Eu me intrometi.
- Não se preocupe Dona Júlia. Meus pais já pagaram. Agora vai lá que ele ta te esperando. Eu vou pra casa.
- Obrigada Anne, você é um anjo na vida do meu filho.
- Não, Dona Júlia. Eu sou só a namorada dele.

FIM 

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